As condições de trabalho dentro das escolas brasileiras entraram em uma nova etapa de atenção com a inclusão dos riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais pela NR-1, em vigor desde maio de 2026. O tema ganha relevância em 10 de outubro, quando se celebram o Dia Mundial da Saúde Mental e o Dia Nacional de Segurança e Saúde nas Escolas, cinco dias antes do Dia dos Professores. Dados da TALIS 2024, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que a questão envolve desde a organização da jornada até a pressão por resultados: 72,4% dos professores brasileiros trabalham em regime parcial, 66% apontam a responsabilização pelo desempenho dos alunos como fonte de estresse e 44% relatam perder bastante tempo de aula por interrupções dos estudantes.
Os números ajudam a deslocar a discussão da saúde mental de uma questão exclusivamente individual para a forma como o trabalho é organizado dentro da escola. Jornada, estabilidade, volume de demandas, disciplina, interrupções, pressão por resultados e suporte às equipes compõem um mesmo ambiente de trabalho e podem interferir na permanência dos profissionais e na continuidade da aprendizagem.
A discussão sobre riscos psicossociais também começa a chegar às escolas a partir das mudanças nas regras de segurança e saúde no trabalho. Nesse cenário, que a Great People Mental Health (GPMH), especializada em saúde mental corporativa e gestão de riscos psicossociais, acompanha a aplicação dessas medidas no ambiente educacional, com foco no mapeamento dos fatores que podem contribuir para o desgaste desses profissionais, adotando e medidas de prevenção.
A própria TALIS oferece um retrato dessa pressão. 64% dos professores brasileiros apontam a manutenção da disciplina em sala de aula como fonte de estresse, enquanto 60% citam o excesso de correções. 46,6% relatam estresse provocado por intimidação ou abuso verbal de estudantes, maior percentual entre os países com dados disponíveis para esse indicador.
A questão também alcança quem está fora da sala de aula. Uma revisão publicada em 2025 na revista School Mental Health, que analisou 38 estudos realizados em 18 países, identificou a sobrecarga administrativa e a falta de apoio e recursos entre os principais fatores associados ao estresse de diretores escolares. Os pesquisadores destacam ainda que a produção científica sobre gestores é menor do que a dedicada aos professores.
Para Renata Conrado, sócia-diretora Regional da GPMH, a escola precisa ser analisada como um ambiente de trabalho formado por diferentes funções. Professores, diretores, coordenadores, equipes administrativas, atendimento às famílias, alimentação, limpeza, portaria e segurança estão inseridos na mesma organização e podem ser afetados pelas condições em que o trabalho é realizado. “Quando a escola cuida da saúde mental de todos os seus profissionais, toda a instituição se beneficia. Um ambiente de trabalho mais saudável melhora as relações e a rotina de quem faz a escola funcionar”, afirma Renata.
A permanência dos profissionais também entra nessa equação. Para Paulo Gaspar, sócio-diretor da GPMH, a discussão sobre saúde mental também precisa considerar a permanência dos profissionais. “A retenção docente está diretamente relacionada às condições em que o trabalho acontece. Quando a escola perde profissionais, perde experiência, vínculo e conhecimento acumulado. Olhar para os fatores que levam ao desgaste é também olhar para a continuidade do processo de aprendizagem”, afirma.
A proposta da GPMH é identificar os riscos psicossociais presentes na organização, analisar os fatores de desgaste e transformar os dados em planos de ação, permitindo que a escola acompanhe os resultados das medidas adotadas. Em outubro, a proximidade entre as datas coloca uma questão no centro do debate: antes de celebrar quem ensina, como as escolas estão cuidando das condições de trabalho de quem faz a aprendizagem acontecer?

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